segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Do Mergulho À Palavra

Por Zeel Fontes*


Quando acordei, lembrei da palavra.
O sonho tinha cores tão nítidas que parecia um filme em cromo ou um positivo de slide: estava numa moto off road e subia um desfiladeiro de paredes abruptas até parar, desequilibrando um pouco, num quase plano, incrustado nessa mesma formação rochosa, que, atrás de mim, em direção vertical, continuava sua existência íngreme. Eu estava bem acima do nível do mar e parara para observar a paisagem que se ia construindo ditada pelo imediatismo do sonho. Contemplei uma imensa árvore que tinha seus pés fincados lá embaixo, mas que meus olhos mal os alcançavam, tamanha altura em que me encontrava. A árvore estava desfolhada. Havia crescido ao mesmo tempo em que o lago, que a envolvia, foi surgindo. Tinha uma beleza secular que lhe conferia força e parecia hipnotizar-me para o salto de moto. Saltei cruzando o nada que se colocava entre o desfiladeiro e a árvore e me vi, já sem a motocicleta, no topo largo, ladeado por galhos secundários, de largos diâmetros, também desfolhados e limitados em seus comprimentos por uma espécie de poda antiga.

Lá no alto, o silêncio assegurava as sensações que não se trocavam por palavras. Tudo era prazer e surpresa por não ter medo. Eu estava ligado, vivo, aberto àquelas novas impressões físicas e curioso por aproveitar cada instante daquele momento. Trazido pelos ventos oníricos, meu primo, que ficara na margem elevada do desfiladeiro, observava incrédulo àquela minha aventura e aguardava quieto o desfecho. Eu estava certo de mim, certo da minha decisão de estar ali e extremamente consciente sobre a efemeridade do tempo que pode esvaziar uma chance. Estava vivo, agudo. Avistei o lago, aos pés da árvore, e fui tomado por uma calma harmoniosa transformada em coragem. O tom azul da água era tranquilo e confiável. Convidava ao mergulho, embora o lago me parecesse raso. Olhei para meu primo buscando cumplicidade e incentivo para lançar-me, mas ele desesperou-se em acenos considerando que eu não fosse. Ouvi um “flapear” de asas e quase me espantei com a presença de uma elfo, não fosse a semiconsciência do sono. De tamanho diminuto, olhos brilhantes e intensos, ela expressava um saber atemporal, quando me fitava dizendo: “jogue-se”. Tornei a olhar para o meu companheiro de viagem que se esvaia em gestos tentando ancorar-me. Retornei o meu foco ao lago. A pequena criatura mitológica repetiu em eco: “jogue-se”, “jogue-se”, “jogue-se”...

De cabeça, sem paraquedas ou cordas elásticas, saltei. Quase imediatamente, a sensação de ligeira apreensão foi substituída por um incomensurável prazer na queda. O atrito do meu corpo rasgando o vento e sendo por ele contornado, ocupava-me de uma concentração vigorosa a experimentar cada nova descoberta que flexionava os meus sentidos, ampliando-os. A caída livre me enchia de uma espécie de liberdade. Não apenas por proporcionar sensações em toda a extensão da pele. Extrapolava os sentidos. A liberdade era menos conceitual e mais real: ela existia, sendo. Eu executava plenamente, naquele átimo de percurso, a faculdade da consciência, integrando o que eu era àquela escolha. Não pensava o quanto faltava para submergir no lago. Ia vivendo. Tudo era admiração e capacidade de dizer sim. Sem que esperasse, mas sem julgar a estranheza, percebi que do meu corpo começavam a se desprender folhas de papéis que flamejavam como pequenas bandeiras, quando arrancadas suavemente e levadas pelo vento tangente. Não eram papéis em branco. Eram papéis escritos como rascunhos. Amassados como rascunhos. A tinta azul da caneta podia ser vista na translucidez das folhas que se soltavam. Eu estava leve, embora caindo por força da gravidade. Mas não estava vazio: aquela experiência sensorial, ao tempo que me atravessava sem tempo para elaborações, passava a fazer parte do que nos impregna, transformando o peso da nossa existência.
Fechei os olhos e tchibum: mergulhei na água morna e transparente com algum receio, logo interceptado pela onda de prazer, de não conseguir profundidade necessária para conter a desaceleração. A água, envolvente, sob aquele céu de um também azul, naquele dia de luminosidade perfeita, mas não exagerada, abraçou minha chegada como a conduzir uma orquestração. Sem impactos maiores, a não ser os que se fixavam em mim, cheguei ao fundo do lago, reforçando aquilo que, acordado, com alguma dor, confirmaria bem mais tarde: todo poço tem um fundo. Firmei os meus pés na areia branca, os impulsionei contra aquela base arenosa, invertendo o sentido da minha direção, que, agora, levava-me para uma emersão e voltei plenamente cônscio de que a aventura terminava, mas mesmo a idéia de finitude era bem-vinda. Integrei aquela vivência que repercute até hoje em mim, deslizei no líquido que me tomava, e nadei, tranqüilamente, até trespassar a superfície do lago. Com a respiração refeita, olhos semicerrados e um certo sorriso incontido, acenei ao meu primo sinalizando que tudo estava bem e pensei na elfo.
Abri os olhos, lembrei: tolerância, a palavra.

*Zeel Fontes é graduado em psicologia pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) Faz pós-graduação em Formação de Escritor no Instituto Superior de Educação Vera Cruz, São Paulo.




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