quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Um poema do jornalista e cineasta Juca Badaró

"Me lanço nesta cidade que não perdoa.
Observo os dias e as coisas que moram neles. Coisas de gente, coisas de bicho.
Coisas estranhas.
Eu mesma sou coisa estranha neste lugar.
Escondo minha boca seca, separo as minhas partes e as reconstruo a cada dia.
Na peleja urbana e fictícia que inventei pra mim, brinco de soldado sem fuzil e morro na primeira trincheira do dia.
E com muita sorte posso dormir à noite sem sobressaltos.
Sem dor nós pés.
Contam, por aqui, de um homem que se entregou assim.
Da mesma forma que às vezes pareço sucumbir.
Foi aumentando os espaços vazios de casa e cada vez se identificando menos.
Frágil, perambulava em autocarros coloridos e fingia ser um cidadão comum.
Até que o dia levava a luz e o calor, mas o deixava numa rua familiar, perto de casa.
Voltava sorrindo...mentindo pra quem? E fui assim andando com muito medo dessa história.
Com receio dessa transformação dentro de mim.
A cidade continuava não me perdoando, mas aos poucos eu a compreendia.
Ou pelo menos procurava compreender.
Especialmente aos seres que a habitavam. Não só sua língua nos distanciava.
Mas a sua voz, o seu tempo, sua verdade, seu segredo, sua sorte.
Minha sorte.
Naquele dia que amanheceu menos amargo, pude saber dos teus encantos.
E num ímpeto involuntário, procurei preservar aquelas sensações em minha carne. Viva.
E continuei assim por não sei quanto tempo.
A cada hora querendo sepultar o meu dia e cada noite desenterrando a memória".

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