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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Sobre o amor e sobre amar



Por Zeel Fontes*

O olhar de Clarice Lispector sobre o amor, registrado no conto O Ovo e A Galinha:

"Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que pensava que era amor."

Não pude evitar fazer conexões com outros dois olhares. O de Lacan e o do cantor/compositor Tom Zé. O primeiro teoriza o amor como falta. O segundo, assim como Clarice, também. Para Lacan: "Amar é dar o que não se tem a quem não é". Para Tom Zé: "O amor é poço onde se despejam lixos e brilhantes: orações, sacrifícios, traições".

A primeira vez que li a frase de Lacan, ela repousava num pequeno impresso que permanecia quieto e inanimado sobre uma mesinha, também inanimada, no consultório do psicanalista, enquanto aguardava ser atendido. Como uma mina que precisa do contato para extirpar vidas ou os seus pedaços, aquela frase explodiu em mim, quando a li, exatamente no momento em que eu amava pela primeira vez e já era um homem maduro. Quando desconfiava que amar parecia ser exatamente assim. Quando eu me encontrava em meio a luta do que eu desejava que fosse e a realidade, captada pela inteligência, do que realmente era. Juro que fiquei três anos de minha vida absorvendo esse impacto como quem precisa conviver com algum membro arrancado de si.

O engraçado é que, anos mais tarde, ao conhecer a música de Tom Zé - quando, coincidentemente, amava um novo amor- e agora, ao ler o conto de Clarice, o impacto passou a ser outro. Não mais explosivo, não mais dilacerante. Passou a vir como um alento, como uma espécie de prótese que me irmana a outros iguais, ou, pelo menos, parecidos. Àqueles que perdendo braços, pernas e corações continuam amando, acreditando em amor, mas cônscios de que a desilusão há. Houve. Haverá.



*Zeel Fontes é graduado em psicologi pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) Faz pós-graduação em Formação de Escritor no Instituto Superior de Educação Vera Cruz, São Paulo.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Sonhos e pesadelos de uma era





Ponto Final, do jornalista Mikal Gilmore, renomado crítico de música estadunidense, não se propõe avaliar conceitos e valores do turbilhão de eventos que ocorreu nas décadas de 60 e 70. Apenas os apresenta como um Forest Gump que transitou entre as celebridades. Para Gilmore, o legado do imaginário marcado por sexo, drogas e rock´n´roll não é dos melhores. Ele mesmo se confessa sobrevivente de uma era marcada por overdoses e devaneios com finais nem sempre felizes. E relata sem pruridos moralistas.

O livro é uma coletânea de ensaios que permeiam histórias do beatnik, da contracultura e do movimento hippie. Trajetórias de personagens como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Timoty Leary, Jim Morisson, Bob Marley, Bob Dylan e bandas como Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin, entre outras, são reveladas em detalhes muitos deles desconhecidos por boa parte dos fãs.

Contestação, rebeldia, radicalismo e, também, a beleza, o lúdico e a utopia. Sonhos e pesadelos se mesclam. Assim se dá a fulminante poesia Uivo, de Ginsberg; a associação de Leary, o psicólogo e papa do ácido, com o movimento Panteras Negras, de quem Gilmore ouviu os últimos relatos no leito de morte; o amor cantado por Marley e correspondido à bala por gangs de Kingston; o esoterismo presente em muitas das composições do Zeppelin. Fatos que o crítico detalha com o distanciamento necessário.
O jornalista, atualmente editor da revista Rolling Stone, não se porta como fã. Longe disso. É observador das cenas expondo seus júbilos e infortúnios. E o faz com texto visceral, traduzindo o clima lisérgico, seja na Califórnia, Jamaica ou Inglaterra.
Lançado no Brasil pela Companhia das Letras há alguns anos, o livro de Gilmore, 439 páginas, é leitura obrigatória àqueles que se interessam e pesquisam cultura pop. E antes de se pretender um veredicto para estancar um tempo de loucuras e comportamentos sem limites, se propõe a entender e retratar estes momentos. Mas não explicá-los. Até mesmo porque não há um ponto final nisso tudo, vide Axl Rose e Amy Winehouse.

*Zeca Peixoto é jornalista, mestre em História Social, pesquisador de História da mídia e blogueiro - Textos ao Vento.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

“...e o aço da minha pele se dissolve”, com o escritor baiano Joel Leal


À distância de um passo
seus braços
à distância de um abraço
um finito espaço
disfarço
não é fácil o fosso
não me forço
não me esforço
à distância de um passo
não faço
desfaço o laço

A lua
Faz calor na rua
Ah, e o trânsito me deixa em transe
Faz calor na rua
E a gentileza derrete no asfalto
Por um momento, passa um sopro de brisa
Nuvens dão espaço e soberana, grandiosa, docemente
A lua aparece
Por um momento, paro e só vejo a lua
Só vejo a lua
A lua. 

Joel Leal