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terça-feira, 1 de abril de 2014
Beijos intermináveis
Experimentar sua barba roçando meus seios, o meu corpo quente sob o dele, os beijos intermináveis me fizeram concluir que eu o queria. Queria assim: nu, na minha cama, com seu olhar intimidador, mas também o queria “assado”: deitado, suado, cansado de tanto me penetrar, fumando um cigarro que eu sempre disse detestar.
Jessica Farias, 16 anos, Salvador, Bahia. Futura letrista e escritora amadora. Cursa Letras na UFBA (Universidade Federal da Bahia)
segunda-feira, 31 de março de 2014
Rosas na sinaleira
Por Chico Ribeiro
Neto*
Tem um rapaz que fica numa sinaleira da Avenida Garibaldi, perto
da Ademar de Barros, há muitos anos e, curiosamente, nunca vi outros vendedores
de rosas em mais nenhum sinal, a não ser em bares à noite, onde mulheres
enfastiadas tentam oferecer rosas à venda, e a maioria não compra.
Esse cara, não, ele não é chato, não insiste, apenas oferece a
rosa uma vez e depois segue em frente. Vejo muitas pessoas comprarem e saírem
satisfeitas.
Em sinaleiras onde acontece tanta coisa – o motoqueiro arranca o
seu retrovisor, vem um chato sujo pra limpar seu parabrisas e você pode sofrer
até um assalto -, aparece um cara vendendo rosas. Me lembro do poema de Carlos
Drummond de Andrade: “Uma flor nasceu na rua”.
Minha mãe dizia que água e conselho só se dá a quem pede. Mas vou
desobedecê-la e dar um conselho a quem cospe fogo na sinaleira ou joga três
cocos para cima: vendam rosas, talvez essa cidade fique um pouco mais feliz.
*Chico Ribeiro Neto é jornalista
terça-feira, 18 de março de 2014
A jornalista e poetisa Daniela Souza
Poesia precisa de voz.
Precisa vazar pelos pulmões,
destravar a língua,
roçar os ouvidos
e alimentar sua vaga passagem pelo planeta Terra.
Plante hoje a poesia no poema e colha risos, lágrimas, emoções.
Sem poema e sem poesia não se faz revolução!
Poesia precisa de voz...
de vez, em vez de ler revista no banheiro
declame, reclame, entoe.
Viva a tecnologia do aparelho fonador! (Sonhador)
Dê voz as suas metáforas,
não pela fama,
não pela métrica,
mas pelo prazer do som...
...para fazer a língua gingar
e, quem sabe, o seu amor feliz
Viva o dia da poesia!
Te desejo mil palavras
E que elas inspirem não só imagens, mas mensagens de arrepiar a alma
Jornalista e poetisa - Daniela Souza
Precisa vazar pelos pulmões,
destravar a língua,
roçar os ouvidos
e alimentar sua vaga passagem pelo planeta Terra.
Plante hoje a poesia no poema e colha risos, lágrimas, emoções.
Sem poema e sem poesia não se faz revolução!
Poesia precisa de voz...
de vez, em vez de ler revista no banheiro
declame, reclame, entoe.
Viva a tecnologia do aparelho fonador! (Sonhador)
Dê voz as suas metáforas,
não pela fama,
não pela métrica,
mas pelo prazer do som...
...para fazer a língua gingar
e, quem sabe, o seu amor feliz
Viva o dia da poesia!
Te desejo mil palavras
E que elas inspirem não só imagens, mas mensagens de arrepiar a alma
Jornalista e poetisa - Daniela Souza

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
O líquido das palavras por Carla Dantas
O líquido das palavras
Aos encontros adverbiais do tempo
E aos sons incessantes que conduzem o corpo
Ao amor transeunte
e a trajetória nua
das palavras que pulsam seus líquidos
Aos poemas que vivem
de nascimentos
Tornam-se
a cada verso e
escorrem das minhas páginas
Aos portais escondidos no fim do olho
Às palavras que me seduzem ao poema
Aos poros que trazem notícias de mim
A tudo que finda
e às condições etéreas do tempo
À possibilidade caleidoscópica das coisas
aquarelar seus vazios
entoar a miudeza das cores
atingir cada sílaba
desobedecer
Tudo tão distante
Tudo tão próximo
Tudo tão cheio de azul
carla dantas

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Do Mergulho À Palavra
Por Zeel Fontes*
Quando acordei, lembrei da
palavra.
O sonho tinha cores tão
nítidas que parecia um filme em cromo ou um positivo de slide: estava numa moto
off road e subia um desfiladeiro de paredes abruptas até parar, desequilibrando
um pouco, num quase plano, incrustado nessa mesma formação rochosa, que, atrás
de mim, em direção vertical, continuava sua existência íngreme. Eu estava bem
acima do nível do mar e parara para observar a paisagem que se ia construindo
ditada pelo imediatismo do sonho. Contemplei uma imensa árvore que tinha seus
pés fincados lá embaixo, mas que meus olhos mal os alcançavam, tamanha altura
em que me encontrava. A árvore estava desfolhada. Havia crescido ao mesmo tempo
em que o lago, que a envolvia, foi surgindo. Tinha uma beleza secular que lhe
conferia força e parecia hipnotizar-me para o salto de moto. Saltei cruzando o
nada que se colocava entre o desfiladeiro e a árvore e me vi, já sem a
motocicleta, no topo largo, ladeado por galhos secundários, de largos
diâmetros, também desfolhados e limitados em seus comprimentos por uma espécie
de poda antiga.
Lá no alto, o silêncio assegurava as sensações que não se trocavam por palavras. Tudo era prazer e surpresa por não ter medo. Eu estava ligado, vivo, aberto àquelas novas impressões físicas e curioso por aproveitar cada instante daquele momento. Trazido pelos ventos oníricos, meu primo, que ficara na margem elevada do desfiladeiro, observava incrédulo àquela minha aventura e aguardava quieto o desfecho. Eu estava certo de mim, certo da minha decisão de estar ali e extremamente consciente sobre a efemeridade do tempo que pode esvaziar uma chance. Estava vivo, agudo. Avistei o lago, aos pés da árvore, e fui tomado por uma calma harmoniosa transformada em coragem. O tom azul da água era tranquilo e confiável. Convidava ao mergulho, embora o lago me parecesse raso. Olhei para meu primo buscando cumplicidade e incentivo para lançar-me, mas ele desesperou-se em acenos considerando que eu não fosse. Ouvi um “flapear” de asas e quase me espantei com a presença de uma elfo, não fosse a semiconsciência do sono. De tamanho diminuto, olhos brilhantes e intensos, ela expressava um saber atemporal, quando me fitava dizendo: “jogue-se”. Tornei a olhar para o meu companheiro de viagem que se esvaia em gestos tentando ancorar-me. Retornei o meu foco ao lago. A pequena criatura mitológica repetiu em eco: “jogue-se”, “jogue-se”, “jogue-se”...
De cabeça, sem paraquedas ou cordas elásticas, saltei. Quase imediatamente, a sensação de ligeira apreensão foi substituída por um incomensurável prazer na queda. O atrito do meu corpo rasgando o vento e sendo por ele contornado, ocupava-me de uma concentração vigorosa a experimentar cada nova descoberta que flexionava os meus sentidos, ampliando-os. A caída livre me enchia de uma espécie de liberdade. Não apenas por proporcionar sensações em toda a extensão da pele. Extrapolava os sentidos. A liberdade era menos conceitual e mais real: ela existia, sendo. Eu executava plenamente, naquele átimo de percurso, a faculdade da consciência, integrando o que eu era àquela escolha. Não pensava o quanto faltava para submergir no lago. Ia vivendo. Tudo era admiração e capacidade de dizer sim. Sem que esperasse, mas sem julgar a estranheza, percebi que do meu corpo começavam a se desprender folhas de papéis que flamejavam como pequenas bandeiras, quando arrancadas suavemente e levadas pelo vento tangente. Não eram papéis em branco. Eram papéis escritos como rascunhos. Amassados como rascunhos. A tinta azul da caneta podia ser vista na translucidez das folhas que se soltavam. Eu estava leve, embora caindo por força da gravidade. Mas não estava vazio: aquela experiência sensorial, ao tempo que me atravessava sem tempo para elaborações, passava a fazer parte do que nos impregna, transformando o peso da nossa existência.
Fechei os olhos e tchibum:
mergulhei na água morna e transparente com algum receio, logo interceptado pela
onda de prazer, de não conseguir profundidade necessária para conter a
desaceleração. A água, envolvente, sob aquele céu de um também azul, naquele
dia de luminosidade perfeita, mas não exagerada, abraçou minha chegada como a
conduzir uma orquestração. Sem impactos maiores, a não ser os que se fixavam em
mim, cheguei ao fundo do lago, reforçando aquilo que, acordado, com alguma dor,
confirmaria bem mais tarde: todo poço tem um fundo. Firmei os meus pés na areia
branca, os impulsionei contra aquela base arenosa, invertendo o sentido da
minha direção, que, agora, levava-me para uma emersão e voltei plenamente cônscio
de que a aventura terminava, mas mesmo a idéia de finitude era bem-vinda.
Integrei aquela vivência que repercute até hoje em mim, deslizei no líquido que
me tomava, e nadei, tranqüilamente, até trespassar a superfície do lago. Com a
respiração refeita, olhos semicerrados e um certo sorriso incontido, acenei ao
meu primo sinalizando que tudo estava bem e pensei na elfo.
Abri os olhos, lembrei:
tolerância, a palavra.
*Zeel Fontes é graduado em psicologia pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) Faz pós-graduação em Formação de Escritor no Instituto Superior de Educação Vera Cruz, São Paulo.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
A poesia de Carla Dantas
Caminhos
Essa é uma palavra que me arrebata
Absorve
Há aqueles que não precisam de pés (visíveis)
Há caminhos invisíveis no corpo
Há objetos que falam por si
Há momentos já vividos
Essa é uma palavra que aquece
Rastreia
Há caminhos na pele
Há aqueles estreitos
cortantes
que desenham os próximos passos
Há caminhos que abrem portais
e veem além do olho
carla dantas
Essa é uma palavra que me arrebata
Absorve
Há aqueles que não precisam de pés (visíveis)
Há caminhos invisíveis no corpo
Há objetos que falam por si
Há momentos já vividos
Essa é uma palavra que aquece
Rastreia
Há caminhos na pele
Há aqueles estreitos
cortantes
que desenham os próximos passos
Há caminhos que abrem portais
e veem além do olho
carla dantas

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