quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

O líquido das palavras por Carla Dantas


O líquido das palavras

Aos encontros adverbiais do tempo
E aos sons incessantes que conduzem o corpo 
Ao amor transeunte
e a trajetória nua 
das palavras que pulsam seus líquidos

Aos poemas que vivem
de nascimentos
Tornam-se
a cada verso e
escorrem das minhas páginas

Aos portais escondidos no fim do olho
Às palavras que me seduzem ao poema
Aos poros que trazem notícias de mim

A tudo que finda
e às condições etéreas do tempo
À possibilidade caleidoscópica das coisas
aquarelar seus vazios
entoar a miudeza das cores
atingir cada sílaba
desobedecer

Tudo tão distante
Tudo tão próximo
Tudo tão cheio de azul

carla dantas



segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Do Mergulho À Palavra

Por Zeel Fontes*


Quando acordei, lembrei da palavra.
O sonho tinha cores tão nítidas que parecia um filme em cromo ou um positivo de slide: estava numa moto off road e subia um desfiladeiro de paredes abruptas até parar, desequilibrando um pouco, num quase plano, incrustado nessa mesma formação rochosa, que, atrás de mim, em direção vertical, continuava sua existência íngreme. Eu estava bem acima do nível do mar e parara para observar a paisagem que se ia construindo ditada pelo imediatismo do sonho. Contemplei uma imensa árvore que tinha seus pés fincados lá embaixo, mas que meus olhos mal os alcançavam, tamanha altura em que me encontrava. A árvore estava desfolhada. Havia crescido ao mesmo tempo em que o lago, que a envolvia, foi surgindo. Tinha uma beleza secular que lhe conferia força e parecia hipnotizar-me para o salto de moto. Saltei cruzando o nada que se colocava entre o desfiladeiro e a árvore e me vi, já sem a motocicleta, no topo largo, ladeado por galhos secundários, de largos diâmetros, também desfolhados e limitados em seus comprimentos por uma espécie de poda antiga.

Lá no alto, o silêncio assegurava as sensações que não se trocavam por palavras. Tudo era prazer e surpresa por não ter medo. Eu estava ligado, vivo, aberto àquelas novas impressões físicas e curioso por aproveitar cada instante daquele momento. Trazido pelos ventos oníricos, meu primo, que ficara na margem elevada do desfiladeiro, observava incrédulo àquela minha aventura e aguardava quieto o desfecho. Eu estava certo de mim, certo da minha decisão de estar ali e extremamente consciente sobre a efemeridade do tempo que pode esvaziar uma chance. Estava vivo, agudo. Avistei o lago, aos pés da árvore, e fui tomado por uma calma harmoniosa transformada em coragem. O tom azul da água era tranquilo e confiável. Convidava ao mergulho, embora o lago me parecesse raso. Olhei para meu primo buscando cumplicidade e incentivo para lançar-me, mas ele desesperou-se em acenos considerando que eu não fosse. Ouvi um “flapear” de asas e quase me espantei com a presença de uma elfo, não fosse a semiconsciência do sono. De tamanho diminuto, olhos brilhantes e intensos, ela expressava um saber atemporal, quando me fitava dizendo: “jogue-se”. Tornei a olhar para o meu companheiro de viagem que se esvaia em gestos tentando ancorar-me. Retornei o meu foco ao lago. A pequena criatura mitológica repetiu em eco: “jogue-se”, “jogue-se”, “jogue-se”...

De cabeça, sem paraquedas ou cordas elásticas, saltei. Quase imediatamente, a sensação de ligeira apreensão foi substituída por um incomensurável prazer na queda. O atrito do meu corpo rasgando o vento e sendo por ele contornado, ocupava-me de uma concentração vigorosa a experimentar cada nova descoberta que flexionava os meus sentidos, ampliando-os. A caída livre me enchia de uma espécie de liberdade. Não apenas por proporcionar sensações em toda a extensão da pele. Extrapolava os sentidos. A liberdade era menos conceitual e mais real: ela existia, sendo. Eu executava plenamente, naquele átimo de percurso, a faculdade da consciência, integrando o que eu era àquela escolha. Não pensava o quanto faltava para submergir no lago. Ia vivendo. Tudo era admiração e capacidade de dizer sim. Sem que esperasse, mas sem julgar a estranheza, percebi que do meu corpo começavam a se desprender folhas de papéis que flamejavam como pequenas bandeiras, quando arrancadas suavemente e levadas pelo vento tangente. Não eram papéis em branco. Eram papéis escritos como rascunhos. Amassados como rascunhos. A tinta azul da caneta podia ser vista na translucidez das folhas que se soltavam. Eu estava leve, embora caindo por força da gravidade. Mas não estava vazio: aquela experiência sensorial, ao tempo que me atravessava sem tempo para elaborações, passava a fazer parte do que nos impregna, transformando o peso da nossa existência.
Fechei os olhos e tchibum: mergulhei na água morna e transparente com algum receio, logo interceptado pela onda de prazer, de não conseguir profundidade necessária para conter a desaceleração. A água, envolvente, sob aquele céu de um também azul, naquele dia de luminosidade perfeita, mas não exagerada, abraçou minha chegada como a conduzir uma orquestração. Sem impactos maiores, a não ser os que se fixavam em mim, cheguei ao fundo do lago, reforçando aquilo que, acordado, com alguma dor, confirmaria bem mais tarde: todo poço tem um fundo. Firmei os meus pés na areia branca, os impulsionei contra aquela base arenosa, invertendo o sentido da minha direção, que, agora, levava-me para uma emersão e voltei plenamente cônscio de que a aventura terminava, mas mesmo a idéia de finitude era bem-vinda. Integrei aquela vivência que repercute até hoje em mim, deslizei no líquido que me tomava, e nadei, tranqüilamente, até trespassar a superfície do lago. Com a respiração refeita, olhos semicerrados e um certo sorriso incontido, acenei ao meu primo sinalizando que tudo estava bem e pensei na elfo.
Abri os olhos, lembrei: tolerância, a palavra.

*Zeel Fontes é graduado em psicologia pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) Faz pós-graduação em Formação de Escritor no Instituto Superior de Educação Vera Cruz, São Paulo.




sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A poesia de Carla Dantas


Caminhos

Essa é uma palavra que me arrebata
Absorve
Há aqueles que não precisam de pés (visíveis)
Há caminhos invisíveis no corpo
Há objetos que falam por si
Há momentos já vividos

Essa é uma palavra que aquece
Rastreia
Há caminhos na pele
Há aqueles estreitos
cortantes
que desenham os próximos passos
Há caminhos que abrem portais
e veem além do olho

carla dantas


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Goya, Moulin Rouge, Pollock e os amores de Picasso no Palecete das Artes da Bahia




Obra de Pollack


A entrada é franca!  Com o título Cinema e Pintores, o Palecete das Artes da Bahia abre as portas para a arte.

Confira a programação de FEVEREIRO/2014:

Dia 12 (quarta-feira) – GOYA 
Direção: Carlos Saura - Espanha,1999
Elenco: Francisco Rabal, Maribel Verdú
Duração: 100 min./Cores.

Dia 14 (sexta-feira) - MOULIN ROUGE (TOULOUSE LAUTREC)
Direção: John Huston - Reino Unido,1952
Elenco: José Ferrer, Zsa Zsa Gabor
Duração: 119min./Cores.

Dia 19 (quarta-feira) – POLLOCK
Direção: Ed Harris - EUA, 2000
Elenco: Ed Harris, Val Kilmer
Duração: 122min./Cores

Dia 21 (sexta-feira) - EXCESSO E PUNIÇÃO (EGON SCHIELE)
Direção Herbert Vesely - Alemanha/França/Áustria,1981
Elenco: Mathieu Carrière, Jane Birkin
Duração: 95min./Cores.

Dia 26 (quarta-feira) - OS AMORES DE PICASSO
Direção: James Ivory - EUA, 1996
Elenco: Anthony Hopkins, Julianne Moore
Duração: 125min./Cores





Palacete das Artes, Salvador, Bahia.
Rua da Graça, 284 - Graça - 71 3117 6986 

O trabalho do artista plástico potiguar Francinaldo Moura

Textos ao Vento, do jornalista Zeca Peixoto



Ele vira a mãe sempre trabalhar com pinturas de pano! Ela pintava verduras, frutas... No pano de prato e em fraudas de crianças. Aos 15 anos teve o primeiro contato para confeccionar a arte. Seus principais ícones são Van Gogh,Tarsila do Amaral e Portinari. Mas tem um prazer especial na pintura de Pablo Picasso. 
De Currais Novos, Rio Grande do Norte (RN), Francinaldo Moura afirma que seu trabalho é a junção de vários estilos dos artistas citados. “A arte para mim é um complemento da vida, que faz o homem representar aquilo o que ele não pode falar das maiorias das vezes com palavras. 
A arte é um signo”, declara.  Francinaldo conversou comigo por celular e expõe suas obras nesta plataforma online. Confira abaixo!







*Antonio Nelson é jornalista. Poesia, prosa, crônica, música e sociedade. Textos à Deriva. Indicado entre os melhores da imprensa de 2010 pela Assembleia Legislativa da Bahia pelo blog Sentinelas da Liberdade. Veiculou entrevista sobre ética jornalística no Observatório da Imprensa. Atuou simultaneamente no jornalismo e na programação da Rádio Sociedade da Bahia, onde produziu entrevista inédita com Paulo Henrique Amorim para o programa Conversa Fiada - com Gill Dilon. Labutou no jornalismo da TV Itapoan/Record. Foi colaborador da revista Caros Amigos. Digita no site do jornalista Luis Nassif, e no blog Textos ao Vento – do jornalista Zeca Peixoto. É fotógrafo. É ciberativista. Natural do Recife, Pernambuco. Ama a Bahia(BA). Mora na cidade do Salvador/BA desde 05 de março de 2001. Também residiu em Natal (RN), Maceió (AL) e Curitiba (PR). Viaja o espaço geográfico brasileiro em busca de entrevistas e reportagens através de financiamento coletivo. Financie!



quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Sobre o amor e sobre amar



Por Zeel Fontes*

O olhar de Clarice Lispector sobre o amor, registrado no conto O Ovo e A Galinha:

"Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que pensava que era amor."

Não pude evitar fazer conexões com outros dois olhares. O de Lacan e o do cantor/compositor Tom Zé. O primeiro teoriza o amor como falta. O segundo, assim como Clarice, também. Para Lacan: "Amar é dar o que não se tem a quem não é". Para Tom Zé: "O amor é poço onde se despejam lixos e brilhantes: orações, sacrifícios, traições".

A primeira vez que li a frase de Lacan, ela repousava num pequeno impresso que permanecia quieto e inanimado sobre uma mesinha, também inanimada, no consultório do psicanalista, enquanto aguardava ser atendido. Como uma mina que precisa do contato para extirpar vidas ou os seus pedaços, aquela frase explodiu em mim, quando a li, exatamente no momento em que eu amava pela primeira vez e já era um homem maduro. Quando desconfiava que amar parecia ser exatamente assim. Quando eu me encontrava em meio a luta do que eu desejava que fosse e a realidade, captada pela inteligência, do que realmente era. Juro que fiquei três anos de minha vida absorvendo esse impacto como quem precisa conviver com algum membro arrancado de si.

O engraçado é que, anos mais tarde, ao conhecer a música de Tom Zé - quando, coincidentemente, amava um novo amor- e agora, ao ler o conto de Clarice, o impacto passou a ser outro. Não mais explosivo, não mais dilacerante. Passou a vir como um alento, como uma espécie de prótese que me irmana a outros iguais, ou, pelo menos, parecidos. Àqueles que perdendo braços, pernas e corações continuam amando, acreditando em amor, mas cônscios de que a desilusão há. Houve. Haverá.



*Zeel Fontes é graduado em psicologi pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) Faz pós-graduação em Formação de Escritor no Instituto Superior de Educação Vera Cruz, São Paulo.

A arte baiana em Morro de Chapéu pelo fotógrafo baiano Sídio Júnior



Sídio Júnior viaja o mundo em busca de imagens inéditas para você!  Natural de Salvador, Bahia. Sídio é engenheiro eletricista pela Universidade Salvador (Unifacs) e Técnico em Eletrotécnica pela Fundação Baiana de Engenharia (FBE). Como amante da fotografia, registra através dessa arte a perspectiva diversificada da “realidade” e propaga suas imagens no Flickr. Confira a exposição França e Itália.