Por Zeel Fontes*
Quando acordei, lembrei da
palavra.
O sonho tinha cores tão
nítidas que parecia um filme em cromo ou um positivo de slide: estava numa moto
off road e subia um desfiladeiro de paredes abruptas até parar, desequilibrando
um pouco, num quase plano, incrustado nessa mesma formação rochosa, que, atrás
de mim, em direção vertical, continuava sua existência íngreme. Eu estava bem
acima do nível do mar e parara para observar a paisagem que se ia construindo
ditada pelo imediatismo do sonho. Contemplei uma imensa árvore que tinha seus
pés fincados lá embaixo, mas que meus olhos mal os alcançavam, tamanha altura
em que me encontrava. A árvore estava desfolhada. Havia crescido ao mesmo tempo
em que o lago, que a envolvia, foi surgindo. Tinha uma beleza secular que lhe
conferia força e parecia hipnotizar-me para o salto de moto. Saltei cruzando o
nada que se colocava entre o desfiladeiro e a árvore e me vi, já sem a
motocicleta, no topo largo, ladeado por galhos secundários, de largos
diâmetros, também desfolhados e limitados em seus comprimentos por uma espécie
de poda antiga.
Lá no alto, o
silêncio assegurava as sensações que não se trocavam por palavras. Tudo era
prazer e surpresa por não ter medo. Eu estava ligado, vivo, aberto àquelas
novas impressões físicas e curioso por aproveitar cada instante daquele
momento. Trazido pelos ventos oníricos, meu primo, que ficara na margem elevada
do desfiladeiro, observava incrédulo àquela minha aventura e aguardava quieto o
desfecho. Eu estava certo de mim, certo da minha decisão de estar ali e
extremamente consciente sobre a efemeridade do tempo que pode esvaziar uma
chance. Estava vivo, agudo. Avistei o lago, aos pés da árvore, e fui tomado por
uma calma harmoniosa transformada em coragem. O tom azul da água era tranquilo
e confiável. Convidava ao mergulho, embora o lago me parecesse raso. Olhei para
meu primo buscando cumplicidade e incentivo para lançar-me, mas ele
desesperou-se em acenos considerando que eu não fosse. Ouvi um “flapear” de
asas e quase me espantei com a presença de uma elfo, não fosse a
semiconsciência do sono. De tamanho diminuto, olhos brilhantes e intensos, ela
expressava um saber atemporal, quando me fitava dizendo: “jogue-se”. Tornei a
olhar para o meu companheiro de viagem que se esvaia em gestos tentando
ancorar-me. Retornei o meu foco ao lago. A pequena criatura mitológica repetiu
em eco: “jogue-se”, “jogue-se”, “jogue-se”...
De cabeça, sem
paraquedas ou cordas elásticas, saltei. Quase imediatamente, a sensação de
ligeira apreensão foi substituída por um incomensurável prazer na queda. O
atrito do meu corpo rasgando o vento e sendo por ele contornado, ocupava-me de
uma concentração vigorosa a experimentar cada nova descoberta que flexionava os
meus sentidos, ampliando-os. A caída livre me enchia de uma espécie de
liberdade. Não apenas por proporcionar sensações em toda a extensão da pele.
Extrapolava os sentidos. A liberdade era menos conceitual e mais real: ela
existia, sendo. Eu executava plenamente, naquele átimo de percurso, a faculdade
da consciência, integrando o que eu era àquela escolha. Não pensava o quanto
faltava para submergir no lago. Ia vivendo. Tudo era admiração e capacidade de
dizer sim. Sem que esperasse, mas sem julgar a estranheza, percebi que do meu
corpo começavam a se desprender folhas de papéis que flamejavam como pequenas
bandeiras, quando arrancadas suavemente e levadas pelo vento tangente. Não eram
papéis em branco. Eram papéis escritos como rascunhos. Amassados como
rascunhos. A tinta azul da caneta podia ser vista na translucidez das folhas
que se soltavam. Eu estava leve, embora caindo por força da gravidade. Mas não
estava vazio: aquela experiência sensorial, ao tempo que me atravessava sem
tempo para elaborações, passava a fazer parte do que nos impregna, transformando
o peso da nossa existência.
Fechei os olhos e tchibum:
mergulhei na água morna e transparente com algum receio, logo interceptado pela
onda de prazer, de não conseguir profundidade necessária para conter a
desaceleração. A água, envolvente, sob aquele céu de um também azul, naquele
dia de luminosidade perfeita, mas não exagerada, abraçou minha chegada como a
conduzir uma orquestração. Sem impactos maiores, a não ser os que se fixavam em
mim, cheguei ao fundo do lago, reforçando aquilo que, acordado, com alguma dor,
confirmaria bem mais tarde: todo poço tem um fundo. Firmei os meus pés na areia
branca, os impulsionei contra aquela base arenosa, invertendo o sentido da
minha direção, que, agora, levava-me para uma emersão e voltei plenamente cônscio
de que a aventura terminava, mas mesmo a idéia de finitude era bem-vinda.
Integrei aquela vivência que repercute até hoje em mim, deslizei no líquido que
me tomava, e nadei, tranqüilamente, até trespassar a superfície do lago. Com a
respiração refeita, olhos semicerrados e um certo sorriso incontido, acenei ao
meu primo sinalizando que tudo estava bem e pensei na elfo.
Abri os olhos, lembrei:
tolerância, a palavra.
*Zeel Fontes é graduado em psicologia pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) Faz pós-graduação em Formação de Escritor no Instituto Superior de Educação Vera Cruz, São Paulo.