terça-feira, 1 de abril de 2014
Beijos intermináveis
Experimentar sua barba roçando meus seios, o meu corpo quente sob o dele, os beijos intermináveis me fizeram concluir que eu o queria. Queria assim: nu, na minha cama, com seu olhar intimidador, mas também o queria “assado”: deitado, suado, cansado de tanto me penetrar, fumando um cigarro que eu sempre disse detestar.
Jessica Farias, 16 anos, Salvador, Bahia. Futura letrista e escritora amadora. Cursa Letras na UFBA (Universidade Federal da Bahia)
segunda-feira, 31 de março de 2014
Rosas na sinaleira
Por Chico Ribeiro
Neto*
Tem um rapaz que fica numa sinaleira da Avenida Garibaldi, perto
da Ademar de Barros, há muitos anos e, curiosamente, nunca vi outros vendedores
de rosas em mais nenhum sinal, a não ser em bares à noite, onde mulheres
enfastiadas tentam oferecer rosas à venda, e a maioria não compra.
Esse cara, não, ele não é chato, não insiste, apenas oferece a
rosa uma vez e depois segue em frente. Vejo muitas pessoas comprarem e saírem
satisfeitas.
Em sinaleiras onde acontece tanta coisa – o motoqueiro arranca o
seu retrovisor, vem um chato sujo pra limpar seu parabrisas e você pode sofrer
até um assalto -, aparece um cara vendendo rosas. Me lembro do poema de Carlos
Drummond de Andrade: “Uma flor nasceu na rua”.
Minha mãe dizia que água e conselho só se dá a quem pede. Mas vou
desobedecê-la e dar um conselho a quem cospe fogo na sinaleira ou joga três
cocos para cima: vendam rosas, talvez essa cidade fique um pouco mais feliz.
*Chico Ribeiro Neto é jornalista
terça-feira, 18 de março de 2014
A jornalista e poetisa Daniela Souza
Poesia precisa de voz.
Precisa vazar pelos pulmões,
destravar a língua,
roçar os ouvidos
e alimentar sua vaga passagem pelo planeta Terra.
Plante hoje a poesia no poema e colha risos, lágrimas, emoções.
Sem poema e sem poesia não se faz revolução!
Poesia precisa de voz...
de vez, em vez de ler revista no banheiro
declame, reclame, entoe.
Viva a tecnologia do aparelho fonador! (Sonhador)
Dê voz as suas metáforas,
não pela fama,
não pela métrica,
mas pelo prazer do som...
...para fazer a língua gingar
e, quem sabe, o seu amor feliz
Viva o dia da poesia!
Te desejo mil palavras
E que elas inspirem não só imagens, mas mensagens de arrepiar a alma
Jornalista e poetisa - Daniela Souza
Precisa vazar pelos pulmões,
destravar a língua,
roçar os ouvidos
e alimentar sua vaga passagem pelo planeta Terra.
Plante hoje a poesia no poema e colha risos, lágrimas, emoções.
Sem poema e sem poesia não se faz revolução!
Poesia precisa de voz...
de vez, em vez de ler revista no banheiro
declame, reclame, entoe.
Viva a tecnologia do aparelho fonador! (Sonhador)
Dê voz as suas metáforas,
não pela fama,
não pela métrica,
mas pelo prazer do som...
...para fazer a língua gingar
e, quem sabe, o seu amor feliz
Viva o dia da poesia!
Te desejo mil palavras
E que elas inspirem não só imagens, mas mensagens de arrepiar a alma
Jornalista e poetisa - Daniela Souza

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
O líquido das palavras por Carla Dantas
O líquido das palavras
Aos encontros adverbiais do tempo
E aos sons incessantes que conduzem o corpo
Ao amor transeunte
e a trajetória nua
das palavras que pulsam seus líquidos
Aos poemas que vivem
de nascimentos
Tornam-se
a cada verso e
escorrem das minhas páginas
Aos portais escondidos no fim do olho
Às palavras que me seduzem ao poema
Aos poros que trazem notícias de mim
A tudo que finda
e às condições etéreas do tempo
À possibilidade caleidoscópica das coisas
aquarelar seus vazios
entoar a miudeza das cores
atingir cada sílaba
desobedecer
Tudo tão distante
Tudo tão próximo
Tudo tão cheio de azul
carla dantas

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Do Mergulho À Palavra
Por Zeel Fontes*
Quando acordei, lembrei da
palavra.
O sonho tinha cores tão
nítidas que parecia um filme em cromo ou um positivo de slide: estava numa moto
off road e subia um desfiladeiro de paredes abruptas até parar, desequilibrando
um pouco, num quase plano, incrustado nessa mesma formação rochosa, que, atrás
de mim, em direção vertical, continuava sua existência íngreme. Eu estava bem
acima do nível do mar e parara para observar a paisagem que se ia construindo
ditada pelo imediatismo do sonho. Contemplei uma imensa árvore que tinha seus
pés fincados lá embaixo, mas que meus olhos mal os alcançavam, tamanha altura
em que me encontrava. A árvore estava desfolhada. Havia crescido ao mesmo tempo
em que o lago, que a envolvia, foi surgindo. Tinha uma beleza secular que lhe
conferia força e parecia hipnotizar-me para o salto de moto. Saltei cruzando o
nada que se colocava entre o desfiladeiro e a árvore e me vi, já sem a
motocicleta, no topo largo, ladeado por galhos secundários, de largos
diâmetros, também desfolhados e limitados em seus comprimentos por uma espécie
de poda antiga.
Lá no alto, o silêncio assegurava as sensações que não se trocavam por palavras. Tudo era prazer e surpresa por não ter medo. Eu estava ligado, vivo, aberto àquelas novas impressões físicas e curioso por aproveitar cada instante daquele momento. Trazido pelos ventos oníricos, meu primo, que ficara na margem elevada do desfiladeiro, observava incrédulo àquela minha aventura e aguardava quieto o desfecho. Eu estava certo de mim, certo da minha decisão de estar ali e extremamente consciente sobre a efemeridade do tempo que pode esvaziar uma chance. Estava vivo, agudo. Avistei o lago, aos pés da árvore, e fui tomado por uma calma harmoniosa transformada em coragem. O tom azul da água era tranquilo e confiável. Convidava ao mergulho, embora o lago me parecesse raso. Olhei para meu primo buscando cumplicidade e incentivo para lançar-me, mas ele desesperou-se em acenos considerando que eu não fosse. Ouvi um “flapear” de asas e quase me espantei com a presença de uma elfo, não fosse a semiconsciência do sono. De tamanho diminuto, olhos brilhantes e intensos, ela expressava um saber atemporal, quando me fitava dizendo: “jogue-se”. Tornei a olhar para o meu companheiro de viagem que se esvaia em gestos tentando ancorar-me. Retornei o meu foco ao lago. A pequena criatura mitológica repetiu em eco: “jogue-se”, “jogue-se”, “jogue-se”...
De cabeça, sem paraquedas ou cordas elásticas, saltei. Quase imediatamente, a sensação de ligeira apreensão foi substituída por um incomensurável prazer na queda. O atrito do meu corpo rasgando o vento e sendo por ele contornado, ocupava-me de uma concentração vigorosa a experimentar cada nova descoberta que flexionava os meus sentidos, ampliando-os. A caída livre me enchia de uma espécie de liberdade. Não apenas por proporcionar sensações em toda a extensão da pele. Extrapolava os sentidos. A liberdade era menos conceitual e mais real: ela existia, sendo. Eu executava plenamente, naquele átimo de percurso, a faculdade da consciência, integrando o que eu era àquela escolha. Não pensava o quanto faltava para submergir no lago. Ia vivendo. Tudo era admiração e capacidade de dizer sim. Sem que esperasse, mas sem julgar a estranheza, percebi que do meu corpo começavam a se desprender folhas de papéis que flamejavam como pequenas bandeiras, quando arrancadas suavemente e levadas pelo vento tangente. Não eram papéis em branco. Eram papéis escritos como rascunhos. Amassados como rascunhos. A tinta azul da caneta podia ser vista na translucidez das folhas que se soltavam. Eu estava leve, embora caindo por força da gravidade. Mas não estava vazio: aquela experiência sensorial, ao tempo que me atravessava sem tempo para elaborações, passava a fazer parte do que nos impregna, transformando o peso da nossa existência.
Fechei os olhos e tchibum:
mergulhei na água morna e transparente com algum receio, logo interceptado pela
onda de prazer, de não conseguir profundidade necessária para conter a
desaceleração. A água, envolvente, sob aquele céu de um também azul, naquele
dia de luminosidade perfeita, mas não exagerada, abraçou minha chegada como a
conduzir uma orquestração. Sem impactos maiores, a não ser os que se fixavam em
mim, cheguei ao fundo do lago, reforçando aquilo que, acordado, com alguma dor,
confirmaria bem mais tarde: todo poço tem um fundo. Firmei os meus pés na areia
branca, os impulsionei contra aquela base arenosa, invertendo o sentido da
minha direção, que, agora, levava-me para uma emersão e voltei plenamente cônscio
de que a aventura terminava, mas mesmo a idéia de finitude era bem-vinda.
Integrei aquela vivência que repercute até hoje em mim, deslizei no líquido que
me tomava, e nadei, tranqüilamente, até trespassar a superfície do lago. Com a
respiração refeita, olhos semicerrados e um certo sorriso incontido, acenei ao
meu primo sinalizando que tudo estava bem e pensei na elfo.
Abri os olhos, lembrei:
tolerância, a palavra.
*Zeel Fontes é graduado em psicologia pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) Faz pós-graduação em Formação de Escritor no Instituto Superior de Educação Vera Cruz, São Paulo.
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
A poesia de Carla Dantas
Caminhos
Essa é uma palavra que me arrebata
Absorve
Há aqueles que não precisam de pés (visíveis)
Há caminhos invisíveis no corpo
Há objetos que falam por si
Há momentos já vividos
Essa é uma palavra que aquece
Rastreia
Há caminhos na pele
Há aqueles estreitos
cortantes
que desenham os próximos passos
Há caminhos que abrem portais
e veem além do olho
carla dantas
Essa é uma palavra que me arrebata
Absorve
Há aqueles que não precisam de pés (visíveis)
Há caminhos invisíveis no corpo
Há objetos que falam por si
Há momentos já vividos
Essa é uma palavra que aquece
Rastreia
Há caminhos na pele
Há aqueles estreitos
cortantes
que desenham os próximos passos
Há caminhos que abrem portais
e veem além do olho
carla dantas

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Goya, Moulin Rouge, Pollock e os amores de Picasso no Palecete das Artes da Bahia
Obra de Pollack
A entrada é franca! Com o título Cinema e Pintores, o Palecete das
Artes da Bahia abre as portas para a arte.
Confira a programação de FEVEREIRO/2014:
Dia 12 (quarta-feira) – GOYA
Direção: Carlos Saura - Espanha,1999
Elenco: Francisco Rabal, Maribel Verdú
Duração: 100 min./Cores.
Dia 14 (sexta-feira) - MOULIN ROUGE (TOULOUSE LAUTREC)
Direção: John Huston - Reino Unido,1952
Elenco: José Ferrer, Zsa Zsa Gabor
Duração: 119min./Cores.
Dia 19 (quarta-feira) – POLLOCK
Direção: Ed Harris - EUA, 2000
Elenco: Ed Harris, Val Kilmer
Duração: 122min./Cores
Dia 21 (sexta-feira) - EXCESSO E PUNIÇÃO (EGON SCHIELE)
Direção Herbert Vesely - Alemanha/França/
Elenco: Mathieu Carrière, Jane Birkin
Duração: 95min./Cores.
Dia 26 (quarta-feira) - OS AMORES DE PICASSO
Direção: James Ivory - EUA, 1996
Elenco: Anthony Hopkins, Julianne Moore
Duração: 125min./Cores
Palacete
das Artes, Salvador, Bahia.
Rua da Graça, 284 - Graça - 71 3117 6986
Rua da Graça, 284 - Graça - 71 3117 6986
O trabalho do artista plástico potiguar Francinaldo Moura
Textos ao Vento, do jornalista Zeca Peixoto
*Antonio
Nelson é jornalista. Poesia, prosa, crônica,
música e sociedade. Textos à Deriva. Indicado entre os melhores da imprensa de 2010 pela
Assembleia Legislativa da Bahia pelo blog Sentinelas da Liberdade. Veiculou entrevista
sobre ética jornalística no Observatório da Imprensa. Atuou simultaneamente no jornalismo e na
programação da Rádio Sociedade da Bahia, onde produziu entrevista inédita com Paulo Henrique Amorim para o programa Conversa Fiada
- com Gill Dilon. Labutou no jornalismo da TV Itapoan/Record. Foi colaborador
da revista Caros Amigos. Digita no site do
jornalista Luis Nassif, e no blog Textos ao Vento – do jornalista Zeca Peixoto. É fotógrafo. É ciberativista. Natural do Recife,
Pernambuco. Ama a Bahia(BA). Mora na cidade do Salvador/BA desde
05 de março de 2001. Também residiu em Natal (RN), Maceió (AL) e Curitiba
(PR). Viaja o espaço geográfico brasileiro em busca de entrevistas e
reportagens através de financiamento coletivo.
Financie!
Por Antonio Nelson*
Ele vira a mãe sempre trabalhar com pinturas de pano! Ela pintava verduras, frutas... No pano de prato e em fraudas de crianças. Aos 15 anos teve o primeiro contato para confeccionar a arte. Seus principais ícones são Van Gogh,Tarsila do Amaral e Portinari. Mas tem um prazer especial na pintura de Pablo Picasso.
De Currais Novos, Rio Grande do Norte (RN), Francinaldo Moura afirma que seu trabalho é a junção de vários estilos dos artistas citados. “A arte para mim é um complemento da vida, que faz o homem representar aquilo o que ele não pode falar das maiorias das vezes com palavras.
A arte é um signo”, declara. Francinaldo conversou comigo por celular e expõe suas obras nesta plataforma online. Confira abaixo!
*Antonio
Nelson é jornalista. Poesia, prosa, crônica,
música e sociedade. Textos à Deriva. Indicado entre os melhores da imprensa de 2010 pela
Assembleia Legislativa da Bahia pelo blog Sentinelas da Liberdade. Veiculou entrevista
sobre ética jornalística no Observatório da Imprensa. Atuou simultaneamente no jornalismo e na
programação da Rádio Sociedade da Bahia, onde produziu entrevista inédita com Paulo Henrique Amorim para o programa Conversa Fiada
- com Gill Dilon. Labutou no jornalismo da TV Itapoan/Record. Foi colaborador
da revista Caros Amigos. Digita no site do
jornalista Luis Nassif, e no blog Textos ao Vento – do jornalista Zeca Peixoto. É fotógrafo. É ciberativista. Natural do Recife,
Pernambuco. Ama a Bahia(BA). Mora na cidade do Salvador/BA desde
05 de março de 2001. Também residiu em Natal (RN), Maceió (AL) e Curitiba
(PR). Viaja o espaço geográfico brasileiro em busca de entrevistas e
reportagens através de financiamento coletivo.
Financie!
quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014
Sobre o amor e sobre amar
Por Zeel Fontes*
O olhar de Clarice Lispector sobre o amor, registrado no conto O Ovo e A Galinha:
"Amor é quando é concedido participar um pouco mais. Poucos querem o amor, porque o amor é a grande desilusão de tudo o mais. E poucos suportam perder todas as outras ilusões. Há os que se voluntariam para o amor, pensando que o amor enriquecerá a vida pessoal. É o contrário: amor é finalmente a pobreza. Amor é não ter. Inclusive amor é a desilusão do que pensava que era amor."
Não pude evitar fazer conexões com outros dois olhares. O de Lacan e o do cantor/compositor Tom Zé. O primeiro teoriza o amor como falta. O segundo, assim como Clarice, também. Para Lacan: "Amar é dar o que não se tem a quem não é". Para Tom Zé: "O amor é poço onde se despejam lixos e brilhantes: orações, sacrifícios, traições".
A primeira vez que li a frase de Lacan, ela repousava num pequeno impresso que permanecia quieto e inanimado sobre uma mesinha, também inanimada, no consultório do psicanalista, enquanto aguardava ser atendido. Como uma mina que precisa do contato para extirpar vidas ou os seus pedaços, aquela frase explodiu em mim, quando a li, exatamente no momento em que eu amava pela primeira vez e já era um homem maduro. Quando desconfiava que amar parecia ser exatamente assim. Quando eu me encontrava em meio a luta do que eu desejava que fosse e a realidade, captada pela inteligência, do que realmente era. Juro que fiquei três anos de minha vida absorvendo esse impacto como quem precisa conviver com algum membro arrancado de si.
O engraçado é que, anos mais tarde, ao conhecer a música de Tom Zé - quando, coincidentemente, amava um novo amor- e agora, ao ler o conto de Clarice, o impacto passou a ser outro. Não mais explosivo, não mais dilacerante. Passou a vir como um alento, como uma espécie de prótese que me irmana a outros iguais, ou, pelo menos, parecidos. Àqueles que perdendo braços, pernas e corações continuam amando, acreditando em amor, mas cônscios de que a desilusão há. Houve. Haverá.
*Zeel Fontes é graduado em psicologi pela UFBA (Universidade Federal da Bahia) Faz pós-graduação em Formação de Escritor no Instituto Superior de Educação Vera Cruz, São Paulo.
A arte baiana em Morro de Chapéu pelo fotógrafo baiano Sídio Júnior
Sídio Júnior viaja o mundo em busca de imagens inéditas para você! Natural de Salvador, Bahia. Sídio é engenheiro eletricista pela Universidade Salvador (Unifacs) e Técnico em Eletrotécnica pela Fundação Baiana de Engenharia (FBE). Como amante da fotografia, registra através dessa arte a perspectiva diversificada da “realidade” e propaga suas imagens no Flickr. Confira a exposição França e Itália.

A poética baiana “hera” com os cineastas Fabrício Ramos e Camele Queiroz
Fabrício Ramos tem graduação em Comunicação Audiovisual pela UESC (Universidade Estadual de Santa Cruz, Bahia). Camele Queiroz é graduada em Comunicação com habilitação em Comunicação e Cultura na FACOM/UFBA). Fabrício e Camele pulverizam através da plataforma online, a produção poética/audiovisual “hera”. Confira!
Antonio Nelson – Como foi sua infância literária, e a descoberta com a produção audiovisual?
Fabrício Ramos - Meus pais sempre estimularam a leitura em casa, desde pequeno, eu passeava muito pela estante de livros de meu pai. Durante a faculdade de comunicação, sob o estímulo de alguns amigos, acabei realizando um documentário sobre diversidade religiosa em Ilhéus, registrando a repercussão das mortes, em dias consecutivos, de um pai de santo e do bispo emérito de Ilhéus, ambos muito populares e queridos na cidade. O processo de fazer o doc, que pra mim era novo e totalmente experimental, me fez querer entender as coisas expressando-as através dos sujeitos dos quais eu me aproximava com a câmera e com a minha visão de mundo. O doc “hera” também reflete essa vontade de descoberta, aproximação e entendimento do outro, para fazer gerar em mim uma visão autoral.
Camele Lyra Queiroz - Minha infância literária foi bem divertida. Teve muita leitura dos Irmãos Grimm, Monteiro Lobato, a poesia era muito presente, era uma coisa bem comum no dia a dia. A descoberta do audiovisual aconteceu na faculdade de comunicação. Foi como perceber uma brecha no academicismo que me possibilitou utilizar alguns conhecimentos que acessei durante a faculdade, porém não para reafirmar a tese de um ou de outro teórico, mas apenas para tratar de coisas que tenho interesse e que julgo terem alguma importância ou valor cultural. Outro dado importante foi o contato com a história do cinema de Retomada, que me fez enxergar que temos um estilo próprio de contar nossas histórias, de representar as nossas realidades. Isso nos deixa mais a vontade para criarmos com aquilo que temos, sem precisar seguir modelos ou padrões ditados pelo que é mais difundido.
Antonio Nelson – E o contato com a poesia! Tem algum poeta na família?
Fabrício Ramos – Não tenho familiares próximos que são poetas, mas sempre quis escrever poesia: nunca consegui! Escrevia versos íntimos na adolescência para jogá-los fora e durante a faculdade formávamos um grupo que se reunia eventualmente para ler e compor poemas. Decidi que lido muito melhor com a poesia lendo-a e apreciando-a do que criando, mas estou sempre próximo dela.
Camele Lyra Queiroz - Meu contato com a poesia e com a arte foi desde sempre. Meu pai é poeta e sempre conviveu muito com artistas plásticos e outros poetas. Isso criou um ambiente muito interessante pra mim porque a arte estava sempre muito presente e eu me divertia muito com isso tudo.
Foto: Wagner Pyter
Fabrício Ramos – Desde que eu e Camele criamos o Bahiadoc – arte documento, há menos de um ano, é certo, decidimos ficar mais atentos e buscar dar alguma ressonância aos contextos culturais baianos, muitas vezes substanciais mas pouco mencionados e mesmo pouco conhecidos, sobretudo das novas gerações. Trata-se de um tema de relevância histórica a julgar pela reverberação que os poetas alcançaram na Bahia e mesmo no Brasil, e o doc alia uma oportunidade inestimável de resgatar um importante capítulo da cultura literária baiana com o nosso escopo de exercitar o que chamamos de arte documento, conceito que orienta o Bahiadoc, isto é, captar o aspecto documental da arte, através da própria arte, valorizando os cenários baianos e a produção audiovisual independente.
Camele Lyra Queiroz - A ideia surgiu a partir do convite de um dos poetas para que o Bahiadoc – arte documento(sítio do qual sou idealizadora e editora junto com Fabrício Ramos) registrasse o lançamento da edição fac-similar da Revista Hera, evento que aconteceu em dezembro de 2011. Depois de algumas conversas com o poeta, eu e Fabricio, já seduzidos pelos elementos que compunham a formação daquele grupo de poetas, chegamos à conclusão de que um evento de lançamento não daria conta de representar todo aquele universo criativo que possibilitou a convivência de pessoas tão diferentes e tão comprometidas com o fazer poético. O registro se deu não na tentativa de uma inovação da linguagem audiovisual, mas antes no reconhecimento da substância daqueles que são os personagens do documentário, que são os poetas e a suas vivências através da poesia.
Antonio Nelson - Quais foram os maiores desafios na produção do documentário?
Fabrício ramos – Um dos grandes desafios do documentário, conceitualmente, era o enfrentamento, no bom sentido, com os poetas. Lemos muito de suas produções na edição especial fac-similar da revista Hera, volume que reúne todos os números da revista publicados ao longo de 33 anos. Percebemos, do nosso lugar de leitores, uma rica substância poética na obra, e que também foi apontada por críticos importantes. Assim, o desafio maior foi, nessa aproximação com os poetas, conseguir extrair dos nossos encontros toda a dimensão poética que as suas criações e vivências revelam. Em termos práticos, o desafio foi viabilizar o doc sem patrocínios. Sempre salientamos a importância e a imprescindibilidade das políticas públicas de estímulo à produção audiovisual de relevância cultural, ao mesmo tempo que sempre ousaremos experimentar modelos alternativos de viabilização das produções. Se fizemos o doc “hera” sem patrocínio, sabíamos das limitações estruturais que poderiam refletir no resultado final (por ex, com maior estrutura, poderíamos ter mais tempo com os poetas, maior tranquilidade para pesquisa e filmagens etc). Mas também sabíamos que, considerando o propósito maior de cada produção audiovisual, seria possível realizar um registro simbólico coerente, embora não realizado em toda sua plenitude, em todo o seu potencial em vários aspectos. Decidimos fazer a exibição especial para os poetas e aberta ao público interessado porque julgamos, de nossa ótica de realizadores, que os próprios poetas (suas falas e presenças), como sujeitos do doc, constituem a qualidade de seu conteúdo. A nós, autores, couberam apenas a grata missão de construir uma mensagem, da forma que nos foi possível, a partir dos encontros com os poetas e que fosse o mais possível fiel à dimensão da experiência.
Camele Lyra Queiroz - A produção independente é sempre um grande desafio, principalmente quando se trata da produção audiovisual, por envolver alguns elementos técnicos estruturais que são condição sine qua non para uma realização satisfatória. No nosso caso, de agentes culturais independentes, que nos lançamos nessa ideia de realizar o doc sem aporte de patrocínio e sem nenhum tipo de financiamento, a vontade de realizar é que foi o motor. Lançamos mão do NAP (Núcleo de Apoio à Produção) da DIMAS, para conseguir os equipamentos. Fora isso, tínhamos que ir à Feira de Santana entrevistar os poetas, não tínhamos um carro disponível e foi preciso alugar um carro para suprir essa demanda, já que os equipamentos não podiam ser transportados de ônibus. É uma condição do termo de uso dos equipamentos, que são caros. Fora isso ainda tivemos alguns percalços na hora da edição – tivemos que empreender grandes esforços para conseguir editar o vídeo de forma adequada tanto à qualidade das imagens (FullHD) quanto a busca do resultado que queríamos enquanto realizadores. No final das contas o que se tem é um documentário de 1h25min com boa qualidade de imagem, e relevante conteúdo proporcionado pelos próprios poetas, não obstante as dificuldades estruturais para a sua realização.
FICHA TÉCNICA:
hera (documentário)
Direção: Fabrício Ramos e Camele Lyra Queiroz
Produção: Fabricio Ramos e Camele Lyra Queiroz
Câmera: Ivanildo Santos Silva e Danilo Umbelino
Assistente de câmera: Danilo Umbelino
Edição, montagem e finalização: Fabricio Ramos e Camele Lyra Queiroz
Realização: Bahiadoc – arte documento
documentário - cor – 1h23min – 2012 – HD
*Antonio Nelson é jornalista. Poesia,
prosa, crônica, música e sociedade. Textos à Deriva. Indicado entre os melhores da imprensa de 2010 pela Assembleia
Legislativa da Bahia pelo blog Sentinelas da Liberdade. Veiculou entrevista
sobre ética jornalística no Observatório da Imprensa. Atuou
simultaneamente no jornalismo e na programação da Rádio Sociedade da Bahia,
onde produziu entrevista inédita com Paulo Henrique Amorim para o programa Conversa
Fiada - com Gill Dilon. Labutou no jornalismo da TV Itapoan/Record. Foi
colaborador da revista Caros Amigos. Digita
no site do jornalista Luis Nassif, e no blog Textos ao Vento – do
jornalista Zeca Peixoto. É fotógrafo. É ciberativista. Natural do Recife, Pernambuco. Ama a Bahia(BA). Mora na cidade do Salvador/BA desde 05 de março de
2001. Também residiu em Natal (RN), Maceió (AL) e Curitiba (PR). Viaja o espaço
geográfico brasileiro em busca de entrevistas e reportagens através de financiamento coletivo.
Colabore.
Um poema do jornalista e cineasta Juca Badaró
"Me lanço nesta cidade que não perdoa.
Observo os dias e as coisas que moram neles. Coisas de gente, coisas de bicho.
Coisas estranhas.
Eu mesma sou coisa estranha neste lugar.
Escondo minha boca seca, separo as minhas partes e as reconstruo a cada dia.
Na peleja urbana e fictícia que inventei pra mim, brinco de soldado sem fuzil e morro na primeira trincheira do dia.
E com muita sorte posso dormir à noite sem sobressaltos.
Sem dor nós pés.
Contam, por aqui, de um homem que se entregou assim.
Da mesma forma que às vezes pareço sucumbir.
Foi aumentando os espaços vazios de casa e cada vez se identificando menos.
Frágil, perambulava em autocarros coloridos e fingia ser um cidadão comum.
Até que o dia levava a luz e o calor, mas o deixava numa rua familiar, perto de casa.
Voltava sorrindo...mentindo pra quem?
E fui assim andando com muito medo dessa história.
Com receio dessa transformação dentro de mim.
A cidade continuava não me perdoando, mas aos poucos eu a compreendia.
Ou pelo menos procurava compreender.
Especialmente aos seres que a habitavam. Não só sua língua nos distanciava.
Mas a sua voz, o seu tempo, sua verdade, seu segredo, sua sorte.
Minha sorte.
Naquele dia que amanheceu menos amargo, pude saber dos teus encantos.
E num ímpeto involuntário, procurei preservar aquelas sensações em minha carne. Viva.
E continuei assim por não sei quanto tempo.
A cada hora querendo sepultar o meu dia e cada noite desenterrando a memória".
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Sonhos e pesadelos de uma era
Por Zeca Peixoto*
Ponto Final, do jornalista Mikal Gilmore, renomado crítico de música estadunidense, não se propõe avaliar conceitos e valores do turbilhão de eventos que ocorreu nas décadas de 60 e 70. Apenas os apresenta como um Forest Gump que transitou entre as celebridades. Para Gilmore, o legado do imaginário marcado por sexo, drogas e rock´n´roll não é dos melhores. Ele mesmo se confessa sobrevivente de uma era marcada por overdoses e devaneios com finais nem sempre felizes. E relata sem pruridos moralistas.
O livro é uma coletânea de ensaios que permeiam histórias do beatnik, da contracultura e do movimento hippie. Trajetórias de personagens como Jack Kerouac, Allen Ginsberg, Timoty Leary, Jim Morisson, Bob Marley, Bob Dylan e bandas como Beatles, Pink Floyd, Led Zeppelin, entre outras, são reveladas em detalhes muitos deles desconhecidos por boa parte dos fãs.
Contestação, rebeldia, radicalismo e, também, a beleza, o lúdico e a utopia. Sonhos e pesadelos se mesclam. Assim se dá a fulminante poesia Uivo, de Ginsberg; a associação de Leary, o psicólogo e papa do ácido, com o movimento Panteras Negras, de quem Gilmore ouviu os últimos relatos no leito de morte; o amor cantado por Marley e correspondido à bala por gangs de Kingston; o esoterismo presente em muitas das composições do Zeppelin. Fatos que o crítico detalha com o distanciamento necessário.
O jornalista, atualmente editor da revista Rolling Stone, não se porta como fã. Longe disso. É observador das cenas expondo seus júbilos e infortúnios. E o faz com texto visceral, traduzindo o clima lisérgico, seja na Califórnia, Jamaica ou Inglaterra.
Lançado no Brasil pela Companhia das Letras há alguns anos, o livro de Gilmore, 439 páginas, é leitura obrigatória àqueles que se interessam e pesquisam cultura pop. E antes de se pretender um veredicto para estancar um tempo de loucuras e comportamentos sem limites, se propõe a entender e retratar estes momentos. Mas não explicá-los. Até mesmo porque não há um ponto final nisso tudo, vide Axl Rose e Amy Winehouse.
*Zeca Peixoto é jornalista, mestre em História Social, pesquisador de História da mídia e blogueiro - Textos ao Vento.
Um soneto da jovem baiana Jessica Farias
Deficiência
Não consigo mais sentir
Sou um paralítico de sentimentos
Tenho essa deficiência, preciso admitir
Mas preciso de alguém que me livre desses tormentos
Alguém que me tire o fôlego em alguns momentos
Que me faça ver o quão bom é viver
Alguém que me tire o fôlego em alguns momentos
Que me faça ver o quão bom é viver
Esquecer devaneios, fugir de todos
E em sua cama me esconder
Enlaçar meus dedos em seus cabelos
Juras de amor pronunciar
Olhar seus olhos e lhes beijar
E em sua cama me esconder
Enlaçar meus dedos em seus cabelos
Juras de amor pronunciar
Olhar seus olhos e lhes beijar
Pena que ainda não chegou
Enquanto isso, fico aqui, na falta de amor
Com essa doença que de mim se apossou.
Jessica Farias, 16
anos, Salvador, Bahia. Futura letrista e escritora amadora. Cursa
Letras na UFBA (Universidade Federal da Bahia).
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